Eu no alto da minha altivez alcoólica, sentado no meu gélido banco de praça, o fiel amigo de todas as horas, eu fico a olhar o contínuo sobe e desce de transeuntes a passar nas portas dos bares e a transitar pelos quiosques quando de repente sinto uma forte pontada no peito. Mas eu não ligo, deve ser ação da idade.
Eu vejo a noite caindo e sinto o frio se aproximando. Com a força da friagem aumenta as minhas pontadas no peito. Passei a noite fria com dores e tomei então a decisão de procurar um médico. Como todo pobre eu procurei o único lugar no qual eu posso ter um atendimento médico digno: o Centro de Saúde de Fartura. Quando lá cheguei me deparei com uma fila imensurável, tão grande que no final dela estava escrito “Se você tem mais de 65 anos desista”. Mas sou brasileiro e minha peleja já começou quando nasci. Então entrei na dita e após umas três horas de espera debaixo de sol, fui recepcionado por duas pessoas muito simpáticas. Eu fui logo dizendo qual era o meu problema e das dores que sentia e eles compadecidos com o mal que me afligia disseram “Não há Vagas” somente para o Mês Que Vêm. Como somente para o mês que vem? Será que eu agüento até o mês que vem? Será que mês que vem eu consigo a tal vaga? Não sei mesmo.
Sem ter muito que fazer eu volto para o meu lar, a Praça 9 de Julho, onde fica meu leito, meu aconchego, meu fiel amigo banco de praça. Mas as dores pioram e não sei mais o que fazer, nem onde ir, não tenho remédio. Me aconchego no banco que, apesar de ser muito frio é o único que me esquenta; quando de repente mais do que de repente meus sentidos começam a se esvair, o sono chega e me acalento nos braços de Morpheu, com um último pensamento aqui se vai o Vagabundo de Praça. Após algumas horas percebo algo me incomodando, uma claridade muito forte no meu rosto, ao abrir os olhos percebo a chegada de um novo dia. O sol já raiou e ainda estou vivo será que é milagre? Não sei responder somente sei que a dor passou e continuo existindo. Acho que só sobrevivi por que tenho uma vaga marcada para o mês que vem, pois compromisso é compromisso, quem sabe o médico explica o porquê de eu ter sobrevivido.
Eu pensei comigo e com meus botões, não sou tão diferente daqueles que me cercam, todos ficam doentes, todos precisam de ajuda e todos tem que esperar vaga para o mês que vem. São diferentes de todos aqueles que têm um pouco a mais de dinheiro para pagar consultas particulares. Não me lembro onde eu li que todo CIDADÃO TEM DIREITO A ATENDIMENTO DE SAÚDE DIGNO. Deixa pra lá, eu que sou um Vagabundo de Praça vou me preocupar? Nem os mandatários da vida política farturense se preocupam... Tenho outro objetivo nesse momento: conseguir uma xícara de café para esquentar meu peito que outrora doía. Dica pessoal não tenha dores e se as tiver, não sei o que fazer. O que nos falta não é qualidade médica e sim mais médicos para atender a população. Não sou eu quem diz é o Senso o Bom Senso.