terça-feira, 16 de agosto de 2011

Esse é meu legado


No alto da minha lucidez alcoólica, continuo a imaginar como bom seria se tudo fosse diferente e me pego observando as pessoas mudarem de calçada somente para evitar minha presença, minha desprezível presença.
Um dia desses no final da tarde não sei por qual motivo, um desses homens de galardão, que tem berço e também “pedigree”, me viu sentado no meu banquinho e me falou com a voz atrovoada, “Saia que eu quero sentar”. Eu com toda a minha modéstia tentei argumentar, que ali não se tratava somente de um banquinho de praça, mas sim de meu fiel amigo e também meu lar, o único que me cabe nessa  minha vida de vadio. O homem imponente com sua calça com uma ética escrita um nome o qual não consigo pronunciar, pois mal sei falar a língua mãe, continuo a esbravejar e disse com imponência. “Eu sou estudado, sou doutor, tenho dinheiro, legado e também sou um dos mandatários da vida pública da cidade da Fartura. Construí um império e você só tem onde morar devido a mim e os meus antepassados”.
Como não sei mas me levantei cabisbaixo e continuei a pensar e caminhei na direção contrária daquele homem nem me dei ao trabalho de revidar ou discutir, quando pensei que a humilhação havia acabado, ele foi me seguido e continuo a dizer as barbáries que o dinheiro lhe dava direito e falou dos lugares que havia ido, as pessoas que havia conhecido e também as comidas que apreciara durante toda sua vida. Meu peito doeu, mas como sou forte o ignorei mais uma vez. Até o momento em que ele me perguntou o quem eu era e o que eu tinha feito. Respondi sem pestanejar, Prazer Vagabundo de Praça, não tenho estudo mas aprendi a ler, não tenho dinheiro mas também não vivo por ele, meu legado é nada, muito menos construí alguma coisa e sou grato a você e a seus antepassados por me darem onde dormir.
Mas continuei pensando em tudo aquilo e escrevi a seguinte frase em um pedaço de papel que trazia em meu bolso, “O dinheiro compra tudo que um homem quer, mas não dá há ele tudo que precisa”. Está ai meu legado, o qual não se acabará em ruínas no passar do tempo, escrito em um pedaço de papel, que ressurgirá nas mentes das pessoas igual a Fênix das cinzas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Quero o comodato do meu banquinho

Eu no alto da minha altivez alcoólica, continuo a observar os transeuntes nas calçadas e também os garis com seu interminável varrer das ruas da minha cidade da Fartura.
Não tendo em que pensar, nem o que filosofar, me lembro que tenho um rádio guardado no meio da minha trouxa de roupa (nossa como está frio nessa quarta-feira), pego o meu rádiomotor e sintonizo na rádio. Já passam das 20 horas e o frio encosta cada vez mais em meus ossos  mas fazer o que, meu abrigo ainda continua sendo o mesmo:  o banco da praça 9 julho. Quando ouço o presidente da Câmara dizendo boa noite, (e como sou solitário, respondo sem pestanejar) começo  a ouvir a sessão camararia.
No decorrer das discussões e apresentações continuo atento a fim de saber o futuro de minha cidade, mas nada do que foi dito me desperta tanto interesse. Me lembrei de uma sessão na qual foi colocada em pauta o comodato de um terreno no distrito industrial para uma grande empresa de transporte de Fartura, e na minha modéstia pensei em pedir o comodato do meu fiel amigo o banco de praça, pois ele me serve como lar já há alguns anos. Minha carta seria mais ou menos assim:  Senhor presidente, venho através dessa missiva solicitar se possível for para meu uso pessoal o banco de praça localizado na Praça 9 de Julho, objeto o qual eu uso como casa, cama e até mesmo como conselheiro. Meus motivos para realizar esse pedido é muito coerente, pois o senhor não sabe o que é ser desabrigado todas as noites de quinta-feira, devido a Feira da Lua, quando sou escorraçado pelo segurança, nas sextas-feira o meu drama também é grande sem contar os sábados e domingos, dia de chuva eu tenho que me deslocar do banco de praça para debaixo da marquise dos bancos. Mas apesar de tudo isso adoro o lugar onde moro. Agradeço a sua compreensão e estimo meus protestos de estima e elevada consideração ASS: Vagabundo de Praça.
Mas me lembrei também que o comodato recebeu pedido de vistas e sumiu, não sei se foi por obra do Rudni ou por bom senso de alguém, mas estou vivendo a minha vida. Algumas pessoas devem estar pensando onde esse cara arrumou um rádio? Onde ele ligou? E como ele sabia escrever essa carta de comodato? A reposta é tão simples, que nem eu sei.