No alto da minha lucidez alcoólica, continuo a imaginar como bom seria se tudo fosse diferente e me pego observando as pessoas mudarem de calçada somente para evitar minha presença, minha desprezível presença.
Um dia desses no final da tarde não sei por qual motivo, um desses homens de galardão, que tem berço e também “pedigree”, me viu sentado no meu banquinho e me falou com a voz atrovoada, “Saia que eu quero sentar”. Eu com toda a minha modéstia tentei argumentar, que ali não se tratava somente de um banquinho de praça, mas sim de meu fiel amigo e também meu lar, o único que me cabe nessa minha vida de vadio. O homem imponente com sua calça com uma ética escrita um nome o qual não consigo pronunciar, pois mal sei falar a língua mãe, continuo a esbravejar e disse com imponência. “Eu sou estudado, sou doutor, tenho dinheiro, legado e também sou um dos mandatários da vida pública da cidade da Fartura. Construí um império e você só tem onde morar devido a mim e os meus antepassados”.
Como não sei mas me levantei cabisbaixo e continuei a pensar e caminhei na direção contrária daquele homem nem me dei ao trabalho de revidar ou discutir, quando pensei que a humilhação havia acabado, ele foi me seguido e continuo a dizer as barbáries que o dinheiro lhe dava direito e falou dos lugares que havia ido, as pessoas que havia conhecido e também as comidas que apreciara durante toda sua vida. Meu peito doeu, mas como sou forte o ignorei mais uma vez. Até o momento em que ele me perguntou o quem eu era e o que eu tinha feito. Respondi sem pestanejar, Prazer Vagabundo de Praça, não tenho estudo mas aprendi a ler, não tenho dinheiro mas também não vivo por ele, meu legado é nada, muito menos construí alguma coisa e sou grato a você e a seus antepassados por me darem onde dormir.
Mas continuei pensando em tudo aquilo e escrevi a seguinte frase em um pedaço de papel que trazia em meu bolso, “O dinheiro compra tudo que um homem quer, mas não dá há ele tudo que precisa”. Está ai meu legado, o qual não se acabará em ruínas no passar do tempo, escrito em um pedaço de papel, que ressurgirá nas mentes das pessoas igual a Fênix das cinzas.